Você conseguiu bolsa de estudos? E outras perguntas que me fazem

lisbon(2)

A decisão da mudança gerou bastante curiosidade nas pessoas e me trouxe uma série de perguntas. Algumas por interesse em saber como as coisas funcionam, outras por curiosidade pela vida alheia mesmo, bem típica dos humanos. A primeira delas, feita por desde o vizinho do condomínio à minha ginecologista, é: você conseguiu bolsa de estudos?

Agora, a resposta inesperada: não, eu não consegui bolsa. Eu vivo com o meu dinheirinho. Explico:

Quando comecei a amadurecer a ideia de viver em outro país, as coisas no Brasil já estavam difíceis e eu sabia que tudo seria por minha conta. Eu também sabia da impossibilidade de resgatar meu fundo de garantia do tempo de serviço porque a empresa onde eu trabalhava tem como regra: se quiser sair, peça demissão. Não negociamos. Favor não insistir.

Felizmente, eu tinha um bom emprego e uma vida que me favoreciam alguma poupança. Dividia o aluguel, consumia pouco e escolhia opções de lazer gratuitas e/ou muy baratas. Además, ainda conseguia uma renda extra fazendo uns freelas, uns colares ou coordenando uma escola de escrita. Sim, minha gente, eu sempre trabalhei muito. 😉

O dinheiro guardado era suficiente para me manter durante um ano. Aquela grana que muita gente economiza para trocar de carro, bancar uma festa de casamento ou dar entrada num apartamento. Também é aquela que muita gente nem consegue juntar porque ainda precisa sanar necessidades bem básicas de Maslow. Enfim… não era uma quantia uau, mas eu também tinha lá meus planos B e C caso não fosse suficiente. Estava tranquila quanto a isso.

De toda forma, agora vem a parte mais bonita mostrando que coisas incríveis acontecem quando perdemos o medo de movimentar nossas vidas.

Ao pedir demissão, eu recebi a proposta de concluir alguns projetos à distância, além de fazer a transição para a profissional que me substituiria (eu trabalhava como coordenadora da área de comunicação de uma rede de colégios). Assim, logo após minha rescisão, assinei um novo contrato de prestação de serviços durante quatro meses. Foi o primeiro caso de trabalho remoto de uma instituição com mais de 100 anos no Brasil. Na minha cabeça, quase uma segunda promoção.

O contrato acabou em dezembro e no início de janeiro eu consegui uma bolsa de colaboração na Universidade de Lisboa, uma espécie de troca de algumas horas de trabalho semanais pela abstenção do pagamento da mensalidade, aqui chamada de propina. Fui selecionada para o Centro de Avaliação de Português Língua Estrangeira – CAPLE, que coordena os exames de proficiência da Língua Portuguesa em diversos países, e continuei na área da educação.

Também em janeiro, meu ex-namorado vendeu meu carro (um favorzinho). Com as despesas sob controle, assumi o risco de ficar por aqui até concluir o curso. Em vez de remarcar a passagem de volta ao Brasil de junho para setembro, achei por bem aproveitar o voo e ir visitar minha família e amigos, voltando para Lisboa em julho.

A verdade é que o meu hábito de poupadora não é de hoje. Eu tinha 10 anos quando pedi minha mãe para ir ao banco comigo abrir uma caderneta de poupança. Havia juntado um dinheirinho com a venda dos meus colares de miçanga e queria fazê-lo render. Fiquei muito feliz de ter um cartãozinho do banco, embora eu nunca mais tenha visto essa graninha porque as coisas ficaram difíceis e meu pai precisou pegá-la de empréstimo. :/

Também foi assim durante toda a adolescência e vida adulta até agora. Eu gosto tanto do assunto ‘economia’ que já cheguei a acompanhar as ações da bolsa de valores com afinco durante uma época (hoje eu acompanho as cotações do euro). É quase a minha marca. Meu pai brinca que eu gasto dinheiro esfregando uma nota na outra. Amigos falam que tenho de dar aulas disso.

Em resumo, estar aqui não significa mais sorte ou dinheiro na vida. É resultado de uma construção com base em muitos anos de estudo e trabalho. Me incluo, sim, numa lista de pessoas privilegiadas por saber utilizar a informação a meu favor. No mais, meu patrimônio intelectual é tudo o que tenho no momento, junto de um contrato de seis meses de aluguel e outro de três meses de prestação de serviços (para a mesma empresa do Brasil).

Aprendi a pensar minha vida de seis em seis meses e tem funcionado. E se um dia você também quiser fazer algo parecido e precisar de ajuda, conta comigo!

P.S.: Apesar de toda a áurea em torno do “viver no exterior”, minha vida aqui é bastante simples. Ainda vou desdobrar meu jeito de economizar em outro post.

P.S.2: A foto que ilustra o post é do Victor Bravo, fotógrafo talentosíssimo de Beagá. Victinho, além de grande amigo, é meu mais novo companheiro de rolês em Lisboa. O nome dele vai aparecer bastante por aqui.😉

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2 comentários em “Você conseguiu bolsa de estudos? E outras perguntas que me fazem”

  1. Amei Carol! E eu nem pensei em como vc foi parar aí! kkkk Só fiquei feliz, feliz mesmo. E eu sei que esta demais, vide fotos do instagram da Possas! Seja feliz pra sempre! Saudades, um dia nos encontramos pra um café! Beijos no coração! Dany

    1. Dany, ler seu comentário e sentir você de pertinho é algo que sempre me aquece o coração. Obrigada pela presença e, sim, também espero que possamos nos encontrar para um café. Um beijo!

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