Cem Dias Entre Céu e Mar: o livro

cem dias entre ceu e mar

Até o 29º ano desta vida balzaca, eu pouco havia me interessado pelos feitos de Amyr Klink. Sabia se tratar de um grande navegador brasileiro e conhecia sua citação mais célebre, aquela que diz “que um homem precisa viajar, não por sua conta, não por meio de histórias…” de alguns perfis de amigos turismólogos orkut afora. De forma geral, nunca fui muito chegada às façanhas dos exploradores do mar. No meu imaginário, as assombrações das montanhas ganhavam de mil a zero de qualquer repertório de piratas ou coisas do tipo. Talvez por ter nascido entre elas. Vai saber…

Foi em abril ou maio que tudo mudou. Entediada com os livros que tinha em casa, resolvi pegar Cem Dias Entre Céu e Mar na casa do Fabio sob os mais sinceros palpites de que gostaria. Alguns meses depois, posso conluir que há poucos livros na vida que conseguem falar tão bem de sonho, planejamento e processo quanto esse. Acrescente ainda algumas palavrinhas como obstinação, determinação, foco e pronto, tem-se aí o essencial para uma boa aventura. O relato é sobre todo o projeto da primeira travessia do Atlântico Sul num barco a remo, incluindo seu início, meio e fim. Detalhe: era 1984.

Além de navegador, Amyr Klink demonstra ser um verdadeiro contador de histórias.  Eu mal podia esperar a chegada da próxima noite para entrar naquele barquinho e percorrer as páginas seguintes, descobrindo um universo tão novo a mim como o oceano. De um jeito leve, mas muito envolvente, Amyr nos conta como planejou tudo, as coincidências que o fizeram intuir que a viagem daria certo, sua desastrosa partida da costa da Namíbia, na África, e toda a profusão de sentimentos que lhe invadiram durante a viagem até chegar ao Brasil.

Finalmente, meu caminho dependeria do meu esforço e dedicação, de decisões minhas e não de terceiros, e eu me sentia suficientemente capaz de solucionar todos os problemas que surgissem, de encontrar saídas para os apuros em que por ventura me metesse.

Se estava com medo? Mais que a espuma das ondas, completamente branco de medo. Mas, ao me encontrar afinal só, só e independente, senti uma súbita calma. Era preciso começar a trabalhar rápido, deixar a África para trás, e era exatamente o que eu estava fazendo. Era preciso vencer o medo; e o grande medo, meu maior medo na viagem, eu venci ali, naquele mesmo instante, em meio à desordem dos elementos e à bagunça daquela situação. Era o medo de nunca partir. Sem dúvida, este foi o maior risco que corri: não partir. (p.21)

Fiquei imaginando o trabalho de pesquisa para um projeto ousado assim, com tudo minimamente planejado: as refeições, os espaços internos de sua “lâmpada flutuante”, a quantidade de água doce necessária por dia… Enfim, é um livro que recomendo para aqueles momentos em que não nos sentimos muito capazes de algo. É sobre sonhos e sobre realizá-los. Sobre ser o primeiro a fazer acontecer. É desses em que a gente fecha a última página com um suspiro e uma certeza: se Amyr Klink conseguiu vir sozinho da África ao Brasil em um barco a remo, num tempo em que nem GPS nem Google existiam, o que é que a gente não consegue nesta vida?

Retrospectiva literária: checked

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