A mulher poderosa

No último fim de semana, tomada por uma decepção amorosa daquelas, uma das companheiras de república resolveu “mudar”. Ao visitá-la no quarto, ela mostrou um livro desses de autoajuda, ilustrado com uma bota na capa, se eu bem me lembro, e com um título que dizia um pouco mais, mas tinha no meio ou no final o termo “mulher poderosa”.

E agora, em qualquer conversa, eu sempre ouço: “não, amiga, a mulher poderosa não faz isso”, ou “a mulher poderosa não tem esse tipo de pensamento”. “Agora sou a mulher poderosa”. O termo tem sido tão pronunciado que, quando eu ouço, já começo a rir. E fico pensando nessas fórmulas fáceis que alguns(as) autores(as) encontram para ganhar dinheiro com esse tipo de literatura.

Mas o fato em si me fez pensar e perder o sono. Então, recordando as mulheres da minha vida, cheguei à conclusão de que, com livro ou não, eu só conheço “mulher poderosa”.

A começar pela minha mãe, que até sei lá que idade dividia a cama de solteiro com o irmão e que passou a adolescência vendendo frutas no balaio e arrumando os armários das tias por alguns trocados. Hoje, tem três filhos criados, e bem criados, diga-se de passagem. Fomos despachados de casa aos 18 para estudar, não engravidamos, não nos viciamos em drogas e sempre tomamos conta do nosso copinho de bebidas na balada.  Cada um segue sua vida do jeito que escolheu. Quer poder maior que esse? Saber que há três crias bem educadas e bem resolvidas por sua conta?

Outra poderosa é a minha chefe, a diretora do Colégio onde trabalho. E ela é tão poderosa que, em agosto do ano passado, foi encarregada de dirigir a unidade do Rio em conjunto com a de BH, até que as coisas se resolvessem por lá. E imagine o que é passar seis meses em ponte aérea, ficando dois dias úteis aqui e três fora.  Nada fácil, ainda mais quando se tem mais de 60. Só com muito poder.

A Naelza, que limpa minha sala, é poderosíssima. Ninguém consegue deixar tudo tão cheiroso quanto ela. Impecável. Quando sai de férias, fico louca. Sem contar o café vespertino que faz com que a cozinha esteja lotada todos os dias às 14h em ponto. É poder demais.

Minhas amigas são T-O-D-A-S poderosas. Está cada uma em um lugar diferente. Mulheres que não tiveram medo de se jogar nesse mundão, de correr atrás dos sonhos, de arcar com a distância da família, de buscar a felicidade que não tem receita. Ovelhas desgarradas e independentes. Haja poder…

E aí vêm esses livros que, no final das contas, só fazem deixar as mulheres mais reféns do sexo oposto, 100% racionais, quase com uma lobotomia reversa. Neles, é possível encontrar frases de todo tipo. A mulher poderosa não transa na primeira noite. E quando transa, consegue ser indiferente. A mulher poderosa não demonstra afeto, não chora de amor e não fica esperando ligação. A mulher poderosa sabe conquistar um homem, porque o segredo é não correr atrás. A mulher poderosa faz isso, aquilo e aquilo outro… Ora bolas, que mulher poderosa precisa ler essas baboseiras? Diz aí?

Estamos há tanto tempo lutando por liberdade, respeito e reconhecimento e de repente chegam esses manuais tentando uniformizar comportamentos que tanto quisemos que fossem individuais, opcionais e por conta própria. Não há fórmulas prontas, receitas de bolo nem nada que seja capaz de deixar uma mulher tão poderosa quanto o seu direito de escolha. E isso inclui tombos, choros, frustração porque aquele emprego não deu certo, decepção com aquele cara que parecia ser finalmente o tal “big one”, aceitação de que maternidade, hoje em dia, é vocação, e mais inúmeras coisas pelas quais faz parte da vida pagar o preço.  E só pra concluir, convenhamos, em tempos de best sellers vazios, poderosa de verdade, só aquela que consegue ser ela mesma, né não?!

E eu conheço muitas, ainda bem!

A todas as poderosas que passam por aqui, um feliz Dia Internacional da Mulher!